segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

DEPOIS DA NOITE AGRESTE





Só os rugidos do leão e da tempestade me fazem pensar seriamente na possibilidade do renascer. Em quê? Serei peixe, serei águia ou cavalo ou simplesmente e outra vez gente?

São poderosos estes dois rugidos.

Nasci num lugar da terra onde naturalmente as tempestades passam. Na minha existência lembro-me de lá ter passado duas e de mãos postas em sinal de respeito e oração pedíamos que a vida se prolongasse ainda mais. Hoje entendo assim, já que o medo além de asas, dá-nos a mais poderosa imaginação para cenários de Dante.

Hoje habito outro lugar na terra onde não passavam tempestades assim. Noites poderosas de vento e água que de um momento para o outro se transforma em pedras de gelo a bater em tudo. Resignadamente escutamos. A Natureza está zangada sem ninguém a dar-lhe atenção devida.

As árvores contorcem-se a mostrar a fúria do vento e com ela gritam e cospem pássaros e folhas e casca e plásticos que sem parar voam e batem na luz do poste atenuando ainda mais a luz dos últimos caminhantes da noite. O vento são trotes de centenas de cavalos a descer a colina sem destino, trazendo nos olhos a fúria da injustiça de um dia lhes terem tirado a liberdade e a diminuírem num picadeiro.

Pelo sossego uno as mãos como quando pequena e vejo hoje através da chuva que marca as vidraças, guerras ao longe sem fim aparente por pedaços de terra que dizem ser de gente e que une as mãos e quando as desune é para atirar uma granada a um seu semelhante e gritando de raiva dizendo que aqueles não são gente.

Não quero ser gente no próximo renascer, serei talvez pássaro do alto, bem do alto do vento e da chuva abrigarei em minhas asas a Paz e a Vida que quereria contar um dia numa nova história.



Inez Andrade Paes

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