hirundo rustica
do seu azul profundo
a travessia do mar
Inez Andrade Paes in todos os dias
hirundo rustica acrílico s/papel colecção particular
leio o que me pertence
e de mim
transparente
água
Inez Andrade Paes in Todos os Dias
uma
mulher cega pega na minha mão
e
todas as pontas
dos
seus quatro dedos da mão direita
percorrem
as linhas da minha
como
sílex que corta um caminho no chão
calada
oiço a sua respiração
vejo
os seus olhos parados
por
cima do interior das pálpebras
como
se a leitura lhe indicasse
todo
o meu passado
respira
fundo
fecha-me
a mão e sorri
fechando
em si a sua mão e dentro dela
toda
a poeira inscrita
nas
palavras que me deixam transparecer
todo
o amor
Inez Andrade Paes
(Todos os Dias 25 de Agosto de 2019)
Ho bisogno del silenzio del mattino
silenzio del mattino lavato dalla bruma della notte
che ha pianto pene di poeti destati.
Ho bisogno del silenzio più stanco della notte
dove le migliori allegrie delle immagini sorgono nella scrittura
per aiutare quel che il pensiero risuona e si unisce alla bruma e lava e ci trasforma.
Amo la vita nell'inquietudine di me
quando mi preparo ad uscire da quel che è logico.
(In: Da Estrada Vermelha)
(Trad. A. Fresu)
..
Preciso do silêncio da manhã
silêncio cristalino lavado pela cacimba da noite
que chorou mágoas de poetas acordados.
Preciso do silêncio mais cansado da noite
onde as maiores alegrias das imagens na escrita surgem
para ajudar o que ressoa o pensamento e se junta à cacimba e lava
lava e nos transforma.
Gosto da vida na inquietude de mim
quando me preparo para sair do que é lógico.
Inez Andrade Paes in Da Estrada Vermelha (p.5) edição da autora
À minha Mãe que me ensinou a amar
sobre a água
dentro dela
anda uma ponte
sobre
a água
dentro
dela
anda
uma ponte
de
noite deita-se
levando-a
inteira ao fundo espaço
verde
de
oiro
um
musgo
prende-se
nos seus pés
e
marca
todo
o caminho de volta
Inez Andrade Paes in Sobre a Água Dentro Dela Anda uma Ponte (p.67) - Glaciar - 2018
ci sono uccelli
in fondo a quest’oceano
e sguardi esangui accanto alle conchiglie
saprai tu cantare come loro?
o in questo mare il sale non cura?
tante ferite aperte e crude
soffrono come patelle alla deriva
strofinando per terra
le lingue aperte
al margine di
tutti i volti sentiti
e gli sguardi dispersi in mezzo a tutto
quello che è mare e quello che è fondo
(Tradução Anna Fresu)
há pássaros no fundo deste oceano.
e olhares exangues ao lado das conchas
saberás tu cantar como eles?
ou neste mar o sal não cura?
tantas feridas abertas e cruas
sofrem como lapas à deriva
roçando no chão as línguas abertas
à margem de todos os rostos sentidos
e os olhares dispersos no meio de tudo
aquilo que é mar aquilo que é fundo
V.10.16a
Inez Andrade Paes in À Margem de Todos os Rostos,(p.29) - Coisas
de Ler, 2017
ama
levanta o olhar para o horizonte
é lá que ao entardecer a morte deixa a paz
ama
levanta la mirada al horizonte
allí al atardecer la muerte deja la paz
(inédito, 2021)
Poemas ibéricos (25) INEZ ANDRADE PAES
É PRECISO
TER MÃOS ABERTAS AO SOL
a imagem não se coordena com o gesto
quando as raízes do pensamento andam perto
tocam no imaginário aberto
ainda a noite deixou traços daquele deserto absoluto
em que corro a amparar o corpo
depois do vento erguer dunas
ao longe
lagos parados
quando a brisa se move lenta
a passar à superfície
a imagem não se coordena com o gesto
dois dedos se movem
mas
o vento os empurra e só no outro momento
os escuto o torpor
dois dedos
como duas colunas erguidas
a um céu aberto cheio de pássaros a voar para o sul
creio ser um sonho
quando os personagens pairam ao meu lado
e os olho como conhecidos
e de braço dado até nos aturamos
porque a imagem não se coordena com o gesto
e tu
e ele
e eu
somos três num deserto
somos três a andar no caminho certo
olham-me os outros de soslaio
a pensar na loucura adormecida
em que os três pássaros alados
se identificam com a vida
corro a ti meu corpo desamparado
entre o gesto largo e a imagem única
a que me apego e quase largo
para te sentir a ti outro
mais perto desta vida
Inez Andrade Paes
in Paredes Abertas ao Céu (p.p.64,65) 2010 - edição de autor