Do projecto - Casa Comum da U. do Porto -
Isabel Marcolino diz “Poema 1”, de Inez Andrade Paes, in Paredes abertas ao céu, 2010 (p. 11)
HOUVE QUEM DISSESSE 25 DE ABRIL
houve quem dissesse
que o amor era uma flor
houve quem afirmasse
que a luz vinha do chão
e os passos alucinados
de alguém que corria
e eram tantos passos
que afinal eram muitos pés
calçados descalços
e de botas
pretas pesadas
e no compasso de todos estes
havia quem vendesse flores
eram cravos e tantos cravos
que se espalharam nas mãos
de todos os passantes
que em anos de vida
sofreram a repressão
hoje
há
quem diga? eram cravos?
vermelhos sem sangue
Inez Andrade Paes in SÃO CRAVOS - 50 Anos de Abril 100 Poemas - Antolgia; Labirinto, 2024
Anatomia
poema longo
que se desbota
com o olhar na planície
da tua perna
encontro o calcanhar
quase gorducho
redondo
de um modelo antigo
a rota remota
em que a planície foi duna
e se comeu
com ventos e degelos
ao norte mais da coxa
que foi
sua firmeza
Inez Andrade Paes in Poesia portuguesa - Revista Oresteia
a Laís Naufel Fayer Cerri
o cisne atravessa
silencioso
a superfície da água
sorri a brisa
que lhe confere o desenho
do bico
como leito
há margens de solidão
outras de revolta
que o cisne esclarece
na sua chegada
pausadamente sai
e com asas de barítono
liberta a densa neblina
que carregou da travessia
Inez Andrade Paes - poema do próximo livro de poesia
que dificuldade
é conseguir brotar noutras pétalas
a dor do autor
a dor do amor
a dor seca da glória que se transfere
e consome nos cantos leves das folhas
Inez Andrade Paes
in germina revista de literatura & arte, 2018
estão de negro estas mulheres
à cabeça se governam
direitas de olhar fixo
com completas maneiras
transportam no pináculo
do cérebro toda a sua labuta
trazem água
trazem terra
sabão ainda em bocados
tomaram em corpo inteiro a água do breve rio
que ligeiro correu tocando nos calcanhares
Inez Andrade Paes in Todos os dias
Abra as janelas, o vento traz poesia: Entrevista com Inez Andrade Paes
Laís Naufel Fayer Cerri in Revista Mulemba, UFRJ Brasil 2024
os dias passam frios
pelos nossos rostos
guardo nas mãos um borralho
que nos abrasará as noites
soltando
tempo marcado a gelo
Inez Andrade Paes in livro do amor
hei-de chorar o tempo
que demoraram os teus passos
a chegar
a partir
e depois
o tempo
hei-de chorar
.
Inez Andrade Paes in todos os dias, (foto) 2024
A partir de dois versos de Garbo Gomes
A simples razão do silêncio importa de Inez Andrade Paes
in QUIASMO - Artes Letras e Ciência