quinta-feira, 6 de abril de 2023








hirundo rustica

 

do seu azul profundo

a travessia do mar


Inez Andrade Paes in todos os dias

hirundo rustica acrílico s/papel colecção particular

terça-feira, 21 de março de 2023

Leio o que me pertence

 

leio o que me pertence

e de mim

transparente

 água

 

Inez Andrade Paes in Todos os Dias 

quarta-feira, 8 de março de 2023

UMA MULHER CEGA PEGA NA MINHA MÃO

 

uma mulher cega pega na minha mão

e todas as pontas

dos seus quatro dedos da mão direita

percorrem as linhas da minha

como sílex que corta um caminho no chão

 

calada oiço a sua respiração

vejo os seus olhos parados

por cima do interior das pálpebras

como se a leitura lhe indicasse

todo o meu passado

 

respira fundo

fecha-me a mão e sorri

fechando em si a sua mão e dentro dela

toda a poeira inscrita

nas palavras que me deixam transparecer

todo o amor


Inez Andrade Paes 

(Todos os Dias 25 de Agosto de 2019) 

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

domingo, 11 de dezembro de 2022

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Ho bisogno del silenzio del mattino
silenzio del mattino    lavato dalla bruma della notte
che ha pianto pene di poeti destati.

Ho bisogno del silenzio più stanco della notte
dove le migliori allegrie delle immagini sorgono nella scrittura
per aiutare quel che il pensiero risuona  e si unisce alla bruma e lava e ci trasforma.

Amo la vita nell'inquietudine di me
quando mi preparo ad uscire da quel che è logico.

(In: Da Estrada Vermelha)
(Trad. A. Fresu)

..
Preciso do silêncio da manhã
silêncio cristalino               lavado pela cacimba da noite
que chorou mágoas de poetas acordados.

Preciso do silêncio mais cansado da noite
onde as maiores alegrias das imagens na escrita surgem
para ajudar o que ressoa o pensamento e se junta à cacimba e lava                                                     
lava e nos transforma. 

Gosto da vida na inquietude de mim
quando me preparo para sair do que é lógico.

Inez Andrade Paes in Da Estrada Vermelha (p.5) edição da autora

domingo, 3 de julho de 2022

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Hoje farias 97 anos

 

                              À minha Mãe que me ensinou a amar

 

sobre a água

dentro dela

anda uma ponte

 

sobre a água

dentro dela

anda uma ponte

de noite deita-se

levando-a inteira ao fundo espaço

verde

de oiro

um musgo

prende-se nos seus pés

e marca

todo o caminho de volta


Inez Andrade Paes in Sobre a Água  Dentro Dela  Anda uma Ponte (p.67) - Glaciar - 2018

segunda-feira, 18 de abril de 2022

segunda-feira, 21 de março de 2022

ci sono uccelli in fondo a quest’oceano











ci sono uccelli in fondo a quest’oceano

e sguardi esangui accanto alle conchiglie

 

saprai tu cantare come loro?

o in questo mare il sale non cura?

 

tante ferite aperte e crude

soffrono come patelle alla deriva

strofinando per  terra le lingue aperte

al margine di tutti i volti sentiti

e gli sguardi dispersi in mezzo a tutto

quello che è mare e quello che è fondo

 

(Tradução Anna Fresu)

 

há pássaros no fundo deste oceano.

e olhares exangues ao lado das conchas

 

saberás tu cantar como eles?

ou neste mar o sal não cura?

 

tantas feridas abertas e cruas

sofrem como lapas à deriva

roçando no chão as línguas abertas

à margem de todos os rostos sentidos

e os olhares dispersos no meio de tudo

aquilo que é mar aquilo que é fundo

 

V.10.16a

 Inez Andrade Paes in À Margem de Todos os Rostos,(p.29) - Coisas de Ler, 2017

quinta-feira, 10 de março de 2022

"Poemas ibéricos"


 

ama       

                                                                
levanta o olhar para o horizonte                                
é lá que ao entardecer a morte deixa a paz   

ama                         

levanta la mirada al horizonte
allí al atardecer la muerte deja la paz


(inédito, 2021)

 Poemas ibéricos (25) INEZ ANDRADE PAES

 

Aspectus. Revista de Arte & Ciência 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

é sempre o vento - het is altijd de wind

 het is altijd de wind
de bestendige wind

..

é sempre o vento
o vento constante

 

ZUCA MAGAZINE

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

É PRECISO

 

É PRECISO

TER MÃOS ABERTAS AO SOL

 

a imagem não se coordena com o gesto

quando as raízes do pensamento andam perto

tocam no imaginário aberto

ainda a noite deixou traços daquele deserto absoluto

em que corro a amparar o corpo

depois do vento erguer     dunas

 

ao longe

lagos parados

quando a brisa se move lenta

a passar à superfície

 

a imagem não se coordena com o gesto

dois dedos se movem

mas

o vento os empurra e só no outro momento

os escuto        o torpor

 

dois dedos

como duas colunas erguidas

a um céu aberto cheio de pássaros a voar para o sul

creio ser um sonho

quando os personagens pairam ao meu lado

e os olho como conhecidos

e de braço dado até nos aturamos

porque a imagem não se coordena com o gesto

e tu

e ele

e eu

somos três num deserto

somos três a andar no caminho certo

 

olham-me os outros de soslaio

a pensar na loucura adormecida

em que os três pássaros alados

se identificam com a vida

 

corro a ti meu corpo desamparado

entre o gesto largo e a imagem única

a que me apego e quase largo

para te sentir a ti outro

mais perto desta vida

 

Inez Andrade Paes

in Paredes Abertas ao Céu (p.p.64,65)  2010 - edição de autor