sexta-feira, 21 de setembro de 2012

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

ESPECTRO



estás
por trás
ao pé
quase a tocar
a uma



rosa


Inez Andrade Paes

segunda-feira, 3 de setembro de 2012


as vacas gritam

com os ubres cheios de leite
ninguém lhes liga
ninguém lhes liga

chamam com mugidos ritmados
ninguém as acode
as acode e limpa

daquele leite que as obriga
para o comercio constante

ninguém as limpa
ninguém as acode
tudo as obriga

são homens de vara que nunca pariram
são homens que tiram sua simples vida

apenas querem um pasto verdejante

ninguém as acode tudo as obriga
ao curral fechado
sem luz sem prado verde
e o leite como elas empacotado
e elas estampadas com sorriso lindo
ao sonho dos homens que são da cidade

vou viver no campo
comprar uma vaca
correr com ela entre flores diversas
e dormir por cima do curral asseado
com o respirar a embalar o sono
o bafo quente a aquecer-me a cama

  Inez Andrade Paes

domingo, 19 de agosto de 2012

Estrelas



só duas
arrastam a superfície prateada
as outras são inúmeras quase invisíveis
mas são
outras     muitas

só duas escorrem espuma
enrolam-se como uma
e espalham-se na areia
dura

macera este mar     a areia e a bruma
que encerra noites longas


Inez Andrade Paes

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

terça-feira, 31 de julho de 2012


...

é Quirimbas é Ibo
que de sua voz me acalma
há dias em que perdida
me sinto
em casa aninhada
é Pemba       é o calor lambido
entre minhas lágrimas

e teu areal plácido


...o pequeno avião sobrevoou as línguas azuis entre claras de marfim, vi assim ainda menina. Reconheço hoje a razão dessa viagem ao Ibo..

Para que estas tonalidades se preservem, o homem deve ficar distante em volume, em tempo. Deve o homem olhar e não sobrepor o pensamento de usufruto em vantagem.
Magros olhos vêem o futuro.
A dor é imensa na retaguarda, os que amam sem proveito.
Meu sonho ainda é jovem, apesar do luto anunciado.
Preciso da urgência de saber quem liderou e quem liderará a abordagem de uma escalada para as cinzentas línguas de água.
Minto se disser que o sofrimento será de todos, porque dos que assim pensaram nas cores, não viram a transparência exacta a que se destina aquele meio e a Vida imensa que lhes foi dada.
Aguardo que alguém de bom nome se junte a mim nas palavras e busque esta razão de Vida.
De longe nunca me ausentei, preservo comigo este testemunho.
Hoje as línguas ainda são claras.

Inez Andrade Paes

sexta-feira, 20 de julho de 2012




SOFÁ CAMA NÃO!


Prefiro o chão.
Dos vários sofás que se abrem em cama, não sei como os constroem, mas os corpos encontram-se no meio - se de dois corpos falamos - enterrados na fundura do meio do colchão, cara contra cara e a pensar que o CO2 do outro nos vai dificultar a oxigenação do cérebro, ou nariz achatado nas costas do outro e de boca aberta.
Se de um corpo se trata - falo do meu - afundo se virada para a direita, narina direita completamente fechada, olho fechado sem aquela ligeireza de pálpebra semicerrada da noite, e o fígado sente-se.
Viro para a esquerda afundo também, desta vez a narina esquerda, a pulsação ouve-se de tal maneira que parece que vou explodir.
De barriga para cima, não respiro pela compressão dos pulmões e os ombros quase se tocam na frente do peito.
De barriga para baixo, nem pensar, é suicídio voluntário.
Para me levantar da fundura esponjosa, tomo balanço com força para me desenterrar e respiro fundo e sofregamente como se me estivesse quase a afogar.
Uma luta.

Sofás cama não. Prefiro o chão.
Mesmo que o rendado da esteira me fique marcado no corpo e a perna coxeie o dia todo de dor ciática e me vanglorie de que passo a noite toda a fazer yoga.

Sofá?
Só de três lugares e uma mantinha por cima, se a noite for fria.


Inez Andrade Paes

domingo, 8 de julho de 2012

..assim pelos mais fracos



a repreensão amarra os braços e as pernas
a tristeza cai na consciência e submete o corpo à ordem
Inez Andrade Paes




quarta-feira, 20 de junho de 2012

Verdes Prados




a natureza corta o sopro
na imensidão do pequeno ser
entre cores
entre amor

sacia bestas e protege-as
porque de castigo o são
libertas
entre espinhos e flores
feridas a descoberto

envolve de paz
a crisálida
que aberta
liberta
mais um belo ser
traz entre as asas um pó que de ouro é
no mais ténue tom

liberto

entre puro alvo
e sombra profunda

Inez Andrade Paes

sábado, 9 de junho de 2012


    Flores de Trevo dormem com o dia nublado

sábado, 2 de junho de 2012

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Não sei de quem é a imagem, não gostaria de a pôr aqui.   Foi através dela, que escrevi o poema.



em penitência a um chão de cascalho quente
a criança desespera pela morte anunciada
a poucos passos        a Mãe
que não o pôde ter em colo       sempre magro

porque de tudo o que a manhã breve acende

as mãos dos outros homens
servem à guerra
servem ao dinheiro
servem à indiferença

o sofrimento é só deste menino

a Mãe reparte-se
e o homem ao fundo vê tudo

Inez Andrade Paes

                                                                                                                                                            

sábado, 26 de maio de 2012


                           "em memória de tudo em que estás vivo"


não vi o velho homem que ali costuma estar a vender velas, dois pedaços de cera restavam ainda no fundo dos candeeiros, um de cada lado, e a abelha que ali sempre está quando vos visito


acendi os dois bocados de cera, a abelha pousou na pedra

uma luz para ti Mãe, outra luz para ti Pai


luzes trémulas ainda quando parti

limpei as folhas secas e as rosas soltas de pétalas

a abelha fez-me correr e dar uma gargalhada, veio atrás de mim e das rosas que levava


agora já não me custa ali ir, mesmo que daquele lugar nada seja vosso ser

a abelha guarda-vos

Inez Andrade Paes



segunda-feira, 14 de maio de 2012




ainda na enseada menos brava

as escarpas
os gritos são teus e das aves de asas largas
a liberdade cresce como o vento que te sopra e larga
são ângulos de preparação e partida
acesas as luzes das estrelas
dorme agora repousa ainda
porque das tuas mãos a música

Inez Andrade Paes


terça-feira, 8 de maio de 2012

Florestas Moçambicanas

PLANTAI ÁRVORES

Plantai árvores, camaradas
Sobre o solo nacional,
Fazei mais famoso ainda
Este lindo Moçambique
País que eu quisera ver
Fecundo, infinito
Grande, como foi outrora
Como pode ser ainda

Plantai árvores, camaradas
Enraizai-as no chão
O vosso esforço isolado
De pouco pode valer
Mas os poucos fazem muito
E amar a Pátria é dever

Não é patriota apenas
Quem, com armas na mão
Contra os agressores estranhos
A Pátria defende
NÃO!
Também é bom Revolucionário
O honrado trabalhador
Que o solo Pátrio amado
Fecunda com o seu suor

É patriota igualmente
Quem a terra fertiliza
Quem as plantas prende à terra
Quem à terra as enraíza.

A árvore amiga e boa
É do homem companheira
Dá-lhe sombra que refresca
A lenha, o fruto, a madeira.

Manuel Gondola in "Poesia de combate" LITERATURA NOVA
Publicações Nova Aurora - Lisboa,1974 pag,32

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A luta económica pelo PROGRESSO



‘If you destroy the forest, you destroy us too.’

- Blade Awá -




http://www.survivalinternational.org/awa

quarta-feira, 25 de abril de 2012

quinta-feira, 19 de abril de 2012

a ferrugem quase liberta
das tuas pétalas
provoca o olhar
para o velho rosa
aberto ainda agora

apontas a fina penugem
que na capa de cada face
te aveluda
e a deixas tombada
como folha caduca

Inez Andrade Paes

sexta-feira, 6 de abril de 2012

sábado, 31 de março de 2012



Em memória da minha Bisavó Lavínia que tocava Cavalleria Rusticana de Mascagni


FLORES ABERTAS

lembras-te da tarde
em que estavas adormecido junto ao cedro
com pedras castanhas a cobrir-te os pés
essas flores amarelas que saíam aqui e ali
eram as alegrias que teus dedos faziam mexer
por baixo das agonias
que teu coração não quis transparecer

diz-me tens saudades daquele lugar?
onde as árvores cantam
e os pássaros param para ouvir
tudo ali é diferente porque de amor se quis
que naquele cedro perto da raiz nascessem pedras castanhas
todas brilhantes como se pintadas de verniz

ali jazem a tua e a minha mão
em forma de raiz para que delas nasça outro cedro

com flores amarelas abertas

é para ti

Inez Andrade Paes

quarta-feira, 21 de março de 2012

poemas
como águas que passam
trazem transparência ou seguem baças
se as barramos
tocam-nos como facas
se as empurramos deitam-se connosco a ver

para onde vamos?
são palavras
merecemos estas
todas
ou então não
as juntamos


Inez Andrade Paes