domingo, 11 de março de 2012

À Fernanda Angius

Um dia mais que lindo em que o Verão se antecipa à Primavera e a acorda.
Fica ela triste a correr atrás dele sem conseguir apanhá-lo, não consegue mais do que as flores que ela plantou antes de ele chegar. O Verão atira-as para trás com a brisa da corrida a fugir dela. A Primavera fica com o cabelo cheio de pétalas brancas e lilases e um rosa pálido aqui e ali.
Escapa-se ele no entardecer e passa pelo Inverno.
A rir fica ela, quando se olha na água do lago que ali se guarda entre as árvores e se vê decorada de grinaldas.
Recolhe-se no Bosque e adormece.

Acordará talvez no dia 21 de Março para chegar toda iluminada e de transparência só dela, se o Inverno não ficar amuado de ciúme.

Inez Andrade Paes

terça-feira, 6 de março de 2012


quando vejo uma árvore bébé
quero levá-la comigo do seu abandono

replantá-la
num abrigo
para ficar fora de perigo
crescer até ao amanhecer
com o segrêdo
que a noite dá
do limite até ao olhar

Inez Andrade Paes

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Um da família dos Turdus turdus


Hoje o dia é de Sol e o Melro - Turdus merula - o galã, já no píncaro da árvore desafia os outros machos para a chegada da Primavera.
É belo o negro deste pássaro, modificado em tons de prata quando o sol bate no corpo conforme a força do som que lhe sai da voz. Estica-se e dobra-se ficando em posição inicial de Tai chi chuan e em si como se em voz média se ausentasse da ideia de que ele é sim o Turdus deste espaço.

Reparem neles - pássaros - antes da chegada da Primavera.

Inez Andrade Paes

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Para a Serenidade VII

Poema


gemes torces-te
no frémito insaciável
da comunidade que te consola

leva o lenço ao nariz que pinga
sangue que escorre
pelo punho cerrado

carrasco de ti levanta
e entrega a ira ao homem
que tens ao lado

daqui nada levarás
senão luz
que do céu chega dos nossos
e mantém esta chama
que me acalma

Inez Andrade Paes

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Um de Fevereiro

........... .......... ... ........Tirada em Pemba em 2003, cidade onde nascemos ..................


- Hoje tive a notícia da morte de uma amiga -


a Águia engole o vento
de asas abertas
leva-te
para o altar daquela núvem

Berta
serena e bela Berta

senta-me ao pé de ti
quero pedir-te que leves
contigo Alfazema
desta que apanho no jardim

é Fevereiro
o frio aqui é de vidro
de transparência única
do lado de lá tu

como estivemos em Nampula


Inez Andrade Paes

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Lascia ch'io pianga

é essa cinza branca
que absorve o delinear da tua face   

Inez Andrade Paes

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Bichos e Homens

Imagem da Encicolpédia Medieval Liber Floridus de Lambert of Saint-Omer


Um cão, um gato e um macaco.
O cão vivia em Portugal, o gato na Pérsia e o macaco na Indonésia.

Encontraram-se os três como amigos numa manifestação contra o abate dos animais para lhes tirar a pele. Os três mascarados de homem.


Ele cão, um homem alto de tez morena e de fala grossa.

Ele gato, um homem ainda mais alto e esguio e de rosto quase pálido e enfraquecida vista, por isso de óculos, ovais, mostrando o brilho do metal quando o sol batia.


Ora o macaco, esse, um senhor gordo cheio de grandes avarias, saltos, arrebiques e de apito pendurado ao peito, se fosse preciso faria barulho ao mais pequeno deslize dos chamados democratas que tinham ganho as eleições naquele país da Europa. Estes tinham prometido mundos e fundos aos animais de pelo e até aos de pena, que estavam na lista dos próximos a ser contemplados com menor mortandade. Uma vez por mês falar-se-ia em abate.


Eram tantos os animais na praça.
Eram tantos animais na praça onde a manifestação começara, vestidos de homens para não serem vistos como de pelo ou de pena.

- Entra o político que iria dar voto ou veto à limpeza da pena ou do pêlo. -


O cão, o gato e o macaco estavam ali de pé ao pé da vaca. Senhora gorda e de chapéu de lado para tapar a peruca.


Todos os quatro atentos aos urros e berros do político sem nada a dizer a não ser:

- Estamos a fazer um grande esforço
- Estamos a preparar para levar ao parlamento
- Estamos a ver se
- Estamos

E estavam. Verdade que estavam todos, mas era muito gordos.

Entra na praça um tigre vestido de Monge Tibetano, exilado em Portugal por causa da anexação do Tibete pela China. A luz alaranjada das suas vestes virou os olhares para si.
Compreendia e via, os animais vestidos de homens que ali estavam e até lhes sorriu com largo abrir de boca em que os pequenos dentes eram pálidas pétalas de pequenina flor branca.

Pede a palavra levantando a mão.

Não se enganem mais, nem vós que estais no palanque nem vós que estais no terreno. A mortandade é um drama.
Hoje tu no palanque és homem, amanhã serás talvez vaca, ou minhoca ou caracol.
Tu que te esguias em corpo hoje de homem e afinal és cão poderás ser amanhã um guarda-rios ou uma árvore ou uma borboleta que só vive um dia. Só as pessoas de bem te conseguirão ver e admirar na mais fugaz passagem.
A Escolha é vossa.

Comam pena ou comam pêlo e que não vos fique o destino traçado, de costas.


Inez Andrade Paes

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Ramo de Castanheiro

Feliz Natal
com a luz pequenina que na noite escura ilumina de forma Divina

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

sábado, 10 de dezembro de 2011

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Em memória de D.Naílde

ao Jaime e ao Júlio


mar quebras macio
nos areais do Índico
e manso e morno

leva a tua mão a dar
quem te aguarda

é o Senhor


Inez Andrade Paes

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Essência de nuances

Ao poeta Virgílio de Lemos que faz anos hoje



folhas de cores
folhas de cores de luz
abrem o tom
conforme o dia

juntam-se e arrefecem na noite fria
quase soltando-se

mas são perenes

como as nossas mãos
desde o dia em que se deram

Inez AndradePaes

domingo, 27 de novembro de 2011

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

UM DIA ASSIM

prefiro varrer as folhas com os pés
fechar os olhos e guardar a chuva
para suar depois
pelas pontas dos dedos
como gotas de orvalho
a lavar o chão da eira
com restos de grãos esquecidos
a aguardar os bicos das Rolas
nos primeiros raios de Sol

Inez Andrade Paes


in Todos os dias, 2005

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

HOMENS orthos

 

 

 

 

 

 

 

 .

chamo-lhes com nomes a todas as palavras

indiferentemente

se são esguias ou mais que magras

 

chamo-lhes com todas as letras

altas e baixas

de estrutura seca ou mesmo molhada

ainda a acabar mesmo no fim de cada uma

cedo-lhes os acentos de rebordos largos

para que neles se governem

entre os folhos ou os trapos

mas que se deitem todas

na mesma espuma branca

em que a massa

rebola depois de seca ...........com tinta se desenha

 

chamo-lhes com nomes a todas as palavras

leves aromáticas mesmo que maceradas

a deitar líquido fermente

de fermentação

 

chamo-lhes com nomes todas elas descalças

depois cada um se as quiser

que as calce e lhes molhe a aba

rebole com elas e se deixe estar

 

se vier alguém se misture ou largue

 

mas não me venham com coisas ............essas de estranhar

porque elas já cá estavam antes de chegar

 

com elas nos deitamos e com elas nos levantamos

sempre dentro da boca

esteja ela aberta ou fechada

chamo-lhes com nomes

e mais nada

 

Inez Andrade Paes in Da Estrada Vermelha


domingo, 16 de outubro de 2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Todos os dias

2011 e a escravatura.
Quantas crianças estarão escondidas em mundos impossíveis.


menino
passa-te nas costas ......uma haste
apontada ao céu
de enxada em mãos tão pequenas
cavas a terra vermelha

quem te obriga meu menino
quem te obriga e passa por ti sem te ver

brincas e lamentas
com insectos
que aparecem no revolver do chão
de poeira

ficam
as cores fortes da Gala gala
e o azul que o Madindi traz do céu
quando vem beber as tuas gotas de suor

quem te obriga

menino
repousa agora
para a noite de esperança

mão generosa te pegue ......te leve embora

Inez Andrade Paes

domingo, 2 de outubro de 2011

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Este Setembro



farias hoje muitos anos Pai, mais anos do que o velho Cedro
que fala com a Lua
que fala com o Sol
faz estremecer de susto quem por baixo dele passa
porque se abraça e geme

lembras-te daquela árvore
é um Cedro não igual aos outros
em cada ramo pássaros baloiçam e dormem em noites agitadas de vento

é um Cedro

o vizinho não gosta de árvores

lembras-te daquela árvore
é um Cedro ficou sem braços do lado esquerdo
são côtos espetados como lanças do lado esquerdo
como escadas
ainda se sobe enquanto a seiva passa
é um Cedro
que plantaste vindo de Melgaço

Pai
tenho dois pequeninos que apanhei e guardei em meu regaço

levo-os comigo para a casa grande
onde não há vizinho
onde é ainda campo
onde o vento sopra nos ramos
onde o Sol seca a humidade da noite


Inez Andrade Paes