sábado, 14 de setembro de 2013

 
Ao meu Pai, que faria hoje noventa anos.

 
Talha- Mar - Rynchops niger
no espelho um risco certo
sem partir
sem chegar
apenas um risco
anuncia o teu passar

Inez Andrade Paes

sábado, 7 de setembro de 2013

EM MEMÓRIA DOS MORTOS NA SÍRIA


Espero que o sol se levante desta bruma

espasmos como açoites em corpos frágeis por engasgos de ar envenenado
caras arrepanhadas de dor
em agonia          
 
um impacto criado
 
foram homens     foram homens       que mataram
largaram as bombas e fugiram        
 
são crianças             são crianças       entre as penas
 
tantos pássaros de asas de seda que na Síria morreram
 
Voem meus meninos   Vossas Mães estarão à espera
Voem para o Norte que o Verão aí está a ser cruel
Voem com as vossas asas de seda


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Lembrem-se
os homens são frágeis
Lembrem-se
de máscaras todos podemos ser
 
Mas daquelas que deviam ser as caras
são marcas pesadas e desgraçadamente falsas
As que mandaram abater
 
Não sintam o que não é para sentir      sintam o que é para ser
Lamentem que no vosso chão a morte foi ouvida
Por gemidos de asas a bater

 Lembrem-se
seres da escuridão
Que abatendo assim Pássaros
serão eles vossas sombras
No altar do amanhecer

Inez Andrade Paes

terça-feira, 27 de agosto de 2013



O sol vai alto, a noite chegará com a certeza de que estes pássaros continuem a existir mal o homem se esqueça deles.
Estas jóias devem continuar perdidas no meio da floresta.
Que a bruma as conserve como conserva as árvores com a humidade que as alimenta.
 
Inez Andrade Paes

quarta-feira, 21 de agosto de 2013




separadamente
uma aqui           outra ali
duas árvores mortas
em pé
com o tronco esburacado     com a ajuda de um pássaro
 
no chão corre uma planta que se ergue na árvore morta
e nos restos dos braços da árvore
a planta iça as suas hastes longas
e tenta chegar à outra
dança
balança
e cresce    e quase   se lança

o vento sopra e a haste enrola-se
no galho mais fino que sobra na ponta daquele ramo
 
agora a planta veste a saia que aperta
à outra árvore que ali se mantém
 
duas árvores mortas
ali à espera do pica-pau que as livre das larvas
e lhes borde o tronco com rendas ocas que decoram a saia
 
Inez Andrade Paes

sábado, 17 de agosto de 2013

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A QUALQUER UM COM OLHOS ASSIM

 
teus olhos verdes
guardam jóias
que só brilham quando o sol lhes bate
 
assim sorria ela com seus olhos verdes
e se eu olhava     ela olhava para os sapatos
pretos                  daqueles duros de verniz

teus olhos verdes
guardam todos os segredos que eu não quis
e apertei no peito
até quase sem ar e sem respeito atirar-tos ao peito
como alfinete decorado de rubis
 
teus olhos verdes fecham-se quando sorris
e o brilho da madrugada nessas jóias lembra-me que hoje
a tua gargalhada ecoa perto de mim

atira-me essas jóias em lágrimas
guardá-las-ei no jardim perto daquele ninho de chapim

Inez Andrade Paes

quinta-feira, 1 de agosto de 2013



Arte de AUNG KYAW HTET
Trabalho muito bom, com a sombra e a luz na cor.

quarta-feira, 31 de julho de 2013



Dos jardins Reais para Concerto
Aranjuez
sons de folclórico  violão alegram  gangos de Verão

quarta-feira, 24 de julho de 2013

 
Cada gota é motivo de ânimo. A translúcida mosca também ela, quer ser gota.
Iris reticulata a flor.

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Íris tem asas de ouro
voa no vento
e aos homens traz
mensagens           
 
Inez Andrade Paes

sábado, 20 de julho de 2013


sabes      das mãos
tenho lembranças        um toque mudo          

na escrita
tenho-te
em lembrança               aflita
 
o amor em nós perdura
alguém te ampare à chegada
  
( Sol
 ilumina o caminho cor-de-rosa de Mayra )
 
 
 18 de Julho de 2013
 Inez Andrade Paes

sábado, 13 de julho de 2013

Som e sangue e a passividade do Amor



um vulto arrasta o ar    violentamente ferido
de morte tomba

numa emboscada

barridos cortam estalos de cigarras na imensidão agreste;

ferido de morte
em poça de sangue
fica

outros barridos numa retirada descontrolada
correm
para que lado

há morte

o homem está em guerra
contratada
armas poderosas estudadas ao milímetro
para um tiro
 
de morte
está
com lágrimas grossas a cortar poeira
olhos grandes
como pedras de negro vidro brilhante

o homem está em guerra
arrasa
floresta  e arbusto cerrado

a matriarca foi morta
emboscada
preparada

descontrolada a manada
corta o mato parado     seco  
sós
e a sombra dos seus corpos

o homem está em guerra
na poça de sangue
plantas encarnadas       trazem à memória
 
um dia alguém deu ordem
 
Matar Elefante
                          
Inez Andrade Paes

 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O acordo do desacordo.

Quando acordamos no sentido das palavras, muitas vezes já somos adultos.

Mas há palavras que nos tocam desde muito pequenos - o caso da palavra espectador - de que somos parte, em casa, na escola, a brincar e até quem teve oportunidade de ir ver um espectáculo.

Somos Espectadores.
 
A palavra Espectadores, que li num panfleto publicitário de uma Câmara Municipal como “Espetadores”.  

Agora mandam-nos escrever assim, ”Espetadores

No panfleto:   “Estavam lá 50 mil espetadores”.
Pergunto, espetadores de quê?  O que é que 50 mil, espetavam?

 
- Um Espectro de Luz, senhores –

Inez Andrade Paes