quinta-feira, 19 de abril de 2012

a ferrugem quase liberta
das tuas pétalas
provoca o olhar
para o velho rosa
aberto ainda agora

apontas a fina penugem
que na capa de cada face
te aveluda
e a deixas tombada
como folha caduca

Inez Andrade Paes

sexta-feira, 6 de abril de 2012

sábado, 31 de março de 2012



Em memória da minha Bisavó Lavínia que tocava Cavalleria Rusticana de Mascagni


FLORES ABERTAS

lembras-te da tarde
em que estavas adormecido junto ao cedro
com pedras castanhas a cobrir-te os pés
essas flores amarelas que saíam aqui e ali
eram as alegrias que teus dedos faziam mexer
por baixo das agonias
que teu coração não quis transparecer

diz-me tens saudades daquele lugar?
onde as árvores cantam
e os pássaros param para ouvir
tudo ali é diferente porque de amor se quis
que naquele cedro perto da raiz nascessem pedras castanhas
todas brilhantes como se pintadas de verniz

ali jazem a tua e a minha mão
em forma de raiz para que delas nasça outro cedro

com flores amarelas abertas

é para ti

Inez Andrade Paes

quarta-feira, 21 de março de 2012

poemas
como águas que passam
trazem transparência ou seguem baças
se as barramos
tocam-nos como facas
se as empurramos deitam-se connosco a ver

para onde vamos?
são palavras
merecemos estas
todas
ou então não
as juntamos


Inez Andrade Paes

sexta-feira, 16 de março de 2012

domingo, 11 de março de 2012

À Fernanda Angius

Um dia mais que lindo em que o Verão se antecipa à Primavera e a acorda.
Fica ela triste a correr atrás dele sem conseguir apanhá-lo, não consegue mais do que as flores que ela plantou antes de ele chegar. O Verão atira-as para trás com a brisa da corrida a fugir dela. A Primavera fica com o cabelo cheio de pétalas brancas e lilases e um rosa pálido aqui e ali.
Escapa-se ele no entardecer e passa pelo Inverno.
A rir fica ela, quando se olha na água do lago que ali se guarda entre as árvores e se vê decorada de grinaldas.
Recolhe-se no Bosque e adormece.

Acordará talvez no dia 21 de Março para chegar toda iluminada e de transparência só dela, se o Inverno não ficar amuado de ciúme.

Inez Andrade Paes

terça-feira, 6 de março de 2012


quando vejo uma árvore bébé
quero levá-la comigo do seu abandono

replantá-la
num abrigo
para ficar fora de perigo
crescer até ao amanhecer
com o segrêdo
que a noite dá
do limite até ao olhar

Inez Andrade Paes

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Um da família dos Turdus turdus


Hoje o dia é de Sol e o Melro - Turdus merula - o galã, já no píncaro da árvore desafia os outros machos para a chegada da Primavera.
É belo o negro deste pássaro, modificado em tons de prata quando o sol bate no corpo conforme a força do som que lhe sai da voz. Estica-se e dobra-se ficando em posição inicial de Tai chi chuan e em si como se em voz média se ausentasse da ideia de que ele é sim o Turdus deste espaço.

Reparem neles - pássaros - antes da chegada da Primavera.

Inez Andrade Paes

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Para a Serenidade VII

Poema


gemes torces-te
no frémito insaciável
da comunidade que te consola

leva o lenço ao nariz que pinga
sangue que escorre
pelo punho cerrado

carrasco de ti levanta
e entrega a ira ao homem
que tens ao lado

daqui nada levarás
senão luz
que do céu chega dos nossos
e mantém esta chama
que me acalma

Inez Andrade Paes

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Um de Fevereiro

........... .......... ... ........Tirada em Pemba em 2003, cidade onde nascemos ..................


- Hoje tive a notícia da morte de uma amiga -


a Águia engole o vento
de asas abertas
leva-te
para o altar daquela núvem

Berta
serena e bela Berta

senta-me ao pé de ti
quero pedir-te que leves
contigo Alfazema
desta que apanho no jardim

é Fevereiro
o frio aqui é de vidro
de transparência única
do lado de lá tu

como estivemos em Nampula


Inez Andrade Paes

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Lascia ch'io pianga

é essa cinza branca
que absorve o delinear da tua face   

Inez Andrade Paes