Em memória da minha Bisavó Lavínia que tocava Cavalleria Rusticana de Mascagni
FLORES ABERTAS
lembras-te da tarde em que estavas adormecido junto ao cedro com pedras castanhas a cobrir-te os pés essas flores amarelas que saíam aqui e ali eram as alegrias que teus dedos faziam mexer por baixo das agonias que teu coração não quis transparecer
diz-me tens saudades daquele lugar? onde as árvores cantam e os pássaros param para ouvir tudo ali é diferente porque de amor se quis que naquele cedro perto da raiz nascessem pedras castanhas todas brilhantes como se pintadas de verniz
ali jazem a tua e a minha mão em forma de raiz para que delas nasça outro cedro só com flores amarelas abertas
é para ti
Inez Andrade Paes
quarta-feira, 21 de março de 2012
poemas como águas que passam trazem transparência ou seguem baças se as barramos tocam-nos como facas se as empurramos deitam-se connosco a ver
para onde vamos? são palavras merecemos estas todas ou então não as juntamos
Um dia mais que lindo em que o Verão se antecipa à Primavera e a acorda. Fica ela triste a correr atrás dele sem conseguir apanhá-lo, não consegue mais do que as flores que ela plantou antes de ele chegar. O Verão atira-as para trás com a brisa da corrida a fugir dela. A Primavera fica com o cabelo cheio de pétalas brancas e lilases e um rosa pálido aqui e ali. Escapa-se ele no entardecer e passa pelo Inverno. A rir fica ela, quando se olha na água do lago que ali se guarda entre as árvores e se vê decorada de grinaldas. Recolhe-se no Bosque e adormece.
Acordará talvez no dia 21 de Março para chegar toda iluminada e de transparência só dela, se o Inverno não ficar amuado de ciúme.
Inez Andrade Paes
terça-feira, 6 de março de 2012
quando vejo uma árvore bébé quero levá-la comigo do seu abandono
replantá-la num abrigo para ficar fora de perigo crescer até ao amanhecer com o segrêdo que a noite dá do limite até ao olhar
Hoje o dia é de Sol e o Melro - Turdus merula - o galã, já no píncaro da árvore desafia os outros machos para a chegada da Primavera. É belo o negro deste pássaro, modificado em tons de prata quando o sol bate no corpo conforme a força do som que lhe sai da voz. Estica-se e dobra-se ficando em posição inicial de Tai chi chuan e em si como se em voz média se ausentasse da ideia de que ele é sim o Turdus deste espaço.
Reparem neles - pássaros - antes da chegada da Primavera.