quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Bichos e Homens

Imagem da Encicolpédia Medieval Liber Floridus de Lambert of Saint-Omer


Um cão, um gato e um macaco.
O cão vivia em Portugal, o gato na Pérsia e o macaco na Indonésia.

Encontraram-se os três como amigos numa manifestação contra o abate dos animais para lhes tirar a pele. Os três mascarados de homem.


Ele cão, um homem alto de tez morena e de fala grossa.

Ele gato, um homem ainda mais alto e esguio e de rosto quase pálido e enfraquecida vista, por isso de óculos, ovais, mostrando o brilho do metal quando o sol batia.


Ora o macaco, esse, um senhor gordo cheio de grandes avarias, saltos, arrebiques e de apito pendurado ao peito, se fosse preciso faria barulho ao mais pequeno deslize dos chamados democratas que tinham ganho as eleições naquele país da Europa. Estes tinham prometido mundos e fundos aos animais de pelo e até aos de pena, que estavam na lista dos próximos a ser contemplados com menor mortandade. Uma vez por mês falar-se-ia em abate.


Eram tantos os animais na praça.
Eram tantos animais na praça onde a manifestação começara, vestidos de homens para não serem vistos como de pelo ou de pena.

- Entra o político que iria dar voto ou veto à limpeza da pena ou do pêlo. -


O cão, o gato e o macaco estavam ali de pé ao pé da vaca. Senhora gorda e de chapéu de lado para tapar a peruca.


Todos os quatro atentos aos urros e berros do político sem nada a dizer a não ser:

- Estamos a fazer um grande esforço
- Estamos a preparar para levar ao parlamento
- Estamos a ver se
- Estamos

E estavam. Verdade que estavam todos, mas era muito gordos.

Entra na praça um tigre vestido de Monge Tibetano, exilado em Portugal por causa da anexação do Tibete pela China. A luz alaranjada das suas vestes virou os olhares para si.
Compreendia e via, os animais vestidos de homens que ali estavam e até lhes sorriu com largo abrir de boca em que os pequenos dentes eram pálidas pétalas de pequenina flor branca.

Pede a palavra levantando a mão.

Não se enganem mais, nem vós que estais no palanque nem vós que estais no terreno. A mortandade é um drama.
Hoje tu no palanque és homem, amanhã serás talvez vaca, ou minhoca ou caracol.
Tu que te esguias em corpo hoje de homem e afinal és cão poderás ser amanhã um guarda-rios ou uma árvore ou uma borboleta que só vive um dia. Só as pessoas de bem te conseguirão ver e admirar na mais fugaz passagem.
A Escolha é vossa.

Comam pena ou comam pêlo e que não vos fique o destino traçado, de costas.


Inez Andrade Paes

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Ramo de Castanheiro

Feliz Natal
com a luz pequenina que na noite escura ilumina de forma Divina

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

sábado, 10 de dezembro de 2011

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Em memória de D.Naílde

ao Jaime e ao Júlio


mar quebras macio
nos areais do Índico
e manso e morno

leva a tua mão a dar
quem te aguarda

é o Senhor


Inez Andrade Paes

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Essência de nuances

Ao poeta Virgílio de Lemos que faz anos hoje



folhas de cores
folhas de cores de luz
abrem o tom
conforme o dia

juntam-se e arrefecem na noite fria
quase soltando-se

mas são perenes

como as nossas mãos
desde o dia em que se deram

Inez AndradePaes

domingo, 27 de novembro de 2011

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

UM DIA ASSIM

prefiro varrer as folhas com os pés
fechar os olhos e guardar a chuva
para suar depois
pelas pontas dos dedos
como gotas de orvalho
a lavar o chão da eira
com restos de grãos esquecidos
a aguardar os bicos das Rolas
nos primeiros raios de Sol

Inez Andrade Paes

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

HOMENS orthos



chamo-lhes com nomes a todas as palavras
indiferentemente
se são esguias ou mais que magras

chamo-lhes com todas as letras
altas e baixas
de estrutura seca ou mesmo molhada
ainda a acabar mesmo no fim de cada uma
cedo-lhes os acentos de rebordos largos
para que neles se governem
entre os folhos ou os trapos
mas que se deitem todas
na mesma espuma branca
em que a massa rebola
depois de sêca ...........com tinta se desenha

chamo-lhes com nomes a todas as palavras
leves aromáticas mesmo que maceradas
a deitar líquido fermente
de fermentação

chamo-lhes com nomes todas elas descalças
depois cada um se as quiser
que as calce e lhes molhe a aba
rebole com elas e se deixe estar

se vier alguém se misture ou largue

mas não me venham com coisas ............essas de estranhar
porque elas já cá estavam antes de chegar

com elas nos deitamos e com elas nos levantamos
sempre dentro da boca
esteja ela aberta ou fechada
chamo-lhes com nomes
e mais nada


Inez Andrade Paes

domingo, 16 de outubro de 2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Todos os dias

2011 e a escravatura.
Quantas crianças estarão escondidas em mundos impossíveis.


menino
passa-te nas costas ......uma haste
apontada ao céu
de enxada em mãos tão pequenas
cavas a terra vermelha

quem te obriga meu menino
quem te obriga e passa por ti sem te ver

brincas e lamentas
com insectos
que aparecem no revolver do chão
de poeira

ficam
as cores fortes da Gala gala
e o azul que o Madindi traz do céu
quando vem beber as tuas gotas de suor

quem te obriga

menino
repousa agora
para a noite de esperança

mão generosa te pegue ......te leve embora

Inez Andrade Paes